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Vamos conversar sobre a psicoterapia infantil?

Para qualquer pessoa que me procura para começar um processo psicoterapêutico eu pergunto se já fez psicoterapia ou análise em algum momento da vida. A resposta mais frequente é “não”, mas não é sobre isso que quero conversar com vocês. Alguns dizem que “sim”, que já haviam buscado na fase adulta. Com a exceção de uma vez, um cliente meu, adolescente, respondeu que já havia feito psicoterapia quando era criança. Nessa oportunidade uma fala dele que me marcou bastante foi: “eu fiz quando criança, mas eu só ficava brincando” complementado por “aí minha mãe acabou me tirando por eu só ficava brincando com a psicóloga”.

Só ficava brincando! Pergunto-me o que a mãe dele esperava. Se por algum acaso queria que a psicóloga sentasse adultamente para dialogar e provocar reflexões maduras em uma criança de seis anos. Além disso, o brincar tem papel essencial no desenvolvimento de qualquer criança.

Dentre as possibilidades de intervenção na psicoterapia com a criança, o brincar é uma escolha, dentre diversas outras, por exemplo: o desenho, jogos dramáticos, etc. Nessas opções por sua vez, inserem-se diversas outras micro possibilidades de relação terapêutica com a criança, e as conversas e diálogos emergirão neste contato lúdico com ela. A partir daí, são exploradas possibilidades de elaboração e reflexão das crianças através do simbólico, que é uma dimensão anterior à estruturação da linguagem, e, portanto, mais fundamental.

Não temos como objetivo corrigir ou enquadrar a criança em uma noção ou modelo predeterminado pela sociedade. De alguma forma isso inevitavelmente irá acontecer, pois a criança se desenvolverá dentro deste campo social. O trabalho psicoterapêutico é compreender as formas de existir desta criança no mundo, e estar disponível para ela mostrar-se a partir de seu próprio mundo, não a partir de um mundo escolhido pelo psicoterapeuta. Dessa forma, a criança cresce dentro de suas próprias possibilidades, e alegra-se por ser compreendida da forma como dá conta de relacionar-se. Em alguns momentos “correções” são realizadas dentro da psicoterapia. Tais correções dos comportamentos são orientadas pela relação terapêutica estabelecida entre criança e psicoterapeuta, de modo que para cada criança as intervenções são distintas. As correções ocorrem de maneira a levar à consciência da criança seus relacionamentos interpessoais, a partir do relacionamento constituído em terapia: Consciência do espaço dela (e do outro), consciência de seu desejo, consciência da humanidade dela (e do outro), etc. As grandes mudanças que os pais percebem é devido a isto, a criança transforma-se em suas relações com as pessoas ao tomar consciência dos papéis dela no mundo com o qual se relaciona.

E sobre o meu cliente adolescente que fez psicoterapia quando criança e “só brincava”: hoje ele é protagonista de um dos processos psicoterapêuticos mais rápidos e responsáveis que já conduzi, devido a sua forte abertura a entrar em contato e adesão para elaborar suas experiências.

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